Mãe, o que é felicidade?

Hoje ela estava muito impaciente. Jamais a vira daquela maneira. Não achei que fosse normal uma menina de seis anos de idade caminhando de um lado para o outro como se fosse um adulto cheio de preocupações. Sempre achei que a infância fosse a melhor fase da vida, embora reconheça que quando era criança queria logo me tornar gente grande. Acho que isso foi um grande erro na minha vida. Quis tanto ficar adulta que não aproveitei minha infância. Enfim, Maria Cláudia devia estar testando todo o meu estoque de bondade e paciência naquela tarde. Respirei fundo e fingi concentração absoluta numa revista de moda.
Maria Cláudia sempre amou ser o centro das atenções e ficou irritadíssima quando percebeu que aquela revistinha de moda estava ocupando o seu lugar, então ela falou:
- Mãe, você não tem coisa mais importante pra fazer do que ler isso? Você não percebe que eu estou preocupada com uma das grandes questões do mundo?
Aquilo me assustou. O que ela entende sobre grandes questões do mundo? Acho que é melhor conversar com a professora dela antes que eu enlouqueça. Não consegui responder, apenas a olhei com cara de espanto e ela continuou a falar:
- Mãe, vocês adultos são tão estranhos. Hoje eu estava pensando sobre a felicidade. Tô cansada de ouvir que todo mundo quer ser feliz. O que é felicidade pra vocês, afinal? Ter duas casas de praia e cinco carros na garagem? Não entendo. Felicidade se compra?
Será que ela havia comido algo estragado? Tive que responder algo, então soltei:
- Filha, está tudo bem? Perdeu alguma boneca?
- Não. Você poderia parar de me enrolar e me responder logo. Sou uma criança querendo descobrir os mistérios do mundo e você vem me perguntar se eu perdi uma boneca... Às vezes, eu penso que os adultos não vivem bem. Vocês vivem irritados e correndo atrás dessa felicidade que acho que vocês mesmos nem sabem direito o que é. Olha, mãe... Não precisa responder nada não. A senhora não sabe mesmo o que é. Não precisa me distrair nem inventar nada. Já estou indo dormir.
E ela realmente foi para o seu quarto e me deixou ali com uma grande dúvida na mente. Resolvi dormir pra não confessar que Maria Cláudia parecia compreender muito mais o significado da felicidade que eu.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sem pé nem cabeça!

Sobre amores não correspondidos